fev 08 2018

CAPTAÇÃO DE ESGOTO EM TEMPO SECO Mario Flavio Moreira (*)

Published by at 5:10 under Jornalismo

ARTIGO VERMELHO

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CAPTAÇÃO DE ESGOTO EM TEMPO SECO

Mario Flavio Moreira (*)

A construção de um cinturão interceptador ao redor da Lagoa de Araruama é a aposta das Concessionárias de Serviços Públicos de Água e Esgoto que operam na Região dos Lagos para garantir que pelo menos 70% do esgoto produzido nos cinco municípios do entorno da lagoa, seja levado para Estações de Tratamento, com captação em tempo seco. No entanto, os investimentos nessa metodologia deveriam acontecer em paralelo à construção das chamadas redes separadoras absolutas, que só deveriam ser concluídas muito tempo depois, em função da complexidade das obras e do grande montante de investimento necessário para garantir sua universalização. Nos Municípios do entorno da Lagoa de Araruama há inúmeras captações em tempo seco, são intervenções no sentido de suprir a inexistência do sistema separador absoluto.

Para onde vai o seu esgoto? No mundo urbano ideal, há duas redes de coleta de efluentes passando sob os logradouros públicos. A primeira é a rede de esgotamento sanitário, formada por manilhas destinadas a escoar o esgoto da casa de cada morador por gravidade; estações elevatórias que bombeiam a carga para as áreas mais altas do terreno; e as estações de tratamento, onde os dejetos são tratados. A segunda teia de canos subterrâneos é responsável pela drenagem pluvial: manilhas que levam as águas da chuva diretamente para os corpos hídricos. Os bueiros são parte integrante desse sistema. Quando chove, a água lava tudo despejando nos corpos hídricos (rios, lagoas e mares) o lixo de ruas e calçadas.

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Segundo a opinião de especialistas, a finalidade original da captação em tempo seco, que intercepta as galerias pluviais direcionando a carga orgânica para ETEs, é servir de apoio a eventuais falhas no sistema separador absoluto. As redes de drenagem sofrem normalmente de contaminações de fontes difusas: o cano de esgoto que estoura e vaza na calçada; óleo de automóveis e dejetos de animas domésticos que são escoados para os bueiros; e até ligações clandestinas de esgoto na tubulação pluvial fazem com que a rede de drenagem, que a princípio só escoa água limpa, seja na realidade um elemento poluidor dos corpos d’água. Além disso, em casos de mau funcionamento das bombas nas estações elevatórias, o esgoto é escoado pela rede de drenagem, que funciona assim como uma espécie de ladrão de caixa d’água. Para evitar que os rejeitos caiam nos corpos hídricos em todos esses momentos, constrói-se um sistema de coleta suplementar, em geral fazendo um cinturão interceptador logo antes dos corpos hídricos para servir de filtro: a carga orgânica é direcionada para a ETE, o lixo fica retido e uma água mais limpa flui para rios, lagoas e praias. Esse é o chamado tempo seco que existe há décadas em diversos centros urbanos.

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Porém, esse mundo ideal, onde a maioria dos moradores é ligada à rede separadora absoluta e o tempo seco vem reforçar a proteção aos corpos hídricos, só existe nas áreas mais ricas dos grandes centros urbanos localizados nas Regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste. No resto dos demais municípios brasileiros os índices de coleta e tratamento são reconhecidamente vergonhosos.

Os Governos dos Municípios da Região dos Lagos apostam, no entanto, que pelo menos 50% dos moradores das cidades tenha ao menos o esgoto afastado de suas residências, sendo canalizado e escoado em tempo seco, para as ETEs para tratá-lo. Isso acontece porque é comum que as prefeituras, ao asfaltar ruas, construam as redes de drenagem e que elas, na ausência de sistemas de esgotamento sanitário, acabem funcionando também para escoamento do esgoto. Ao invés de drenar água limpa da chuva, as galerias pluviais são cloacas poluentes dos corpos hídricos. E não é preciso ir muito longe: em pleno centro de Cabo Frio, é comum ver efluentes caindo pelas laterais do Canal do Itajuru mesmo nos dias em que não há uma só gota caindo do céu.

Decorre daí a ideia de fazer a captação de esgoto apenas em tempo seco, aproveitando a rede pluvial e construindo filtros nas calhas de alguns rios da Bacia da Lagoa de Araruama, ligando esses pontos às ETEs. Pelo menos o esgoto que vier pelas manilhas interceptadas será tratado. As galerias pluviais existentes, obviamente, não foram construídas para receber esgoto e sim água da chuva. Com isso, em dias muitos chuvosos, a quantidade de material passando pelas manilhas aumentará a ponto de se tornar impossível a filtragem sem vazamentos do material orgânico acumulado. O resíduo que extravasar vai parar nos rios e valas e, consequentemente na Lagoa de Araruama. Daí o nome da tecnologia: o sistema só funciona bem em períodos de tempo seco.

Alguns especialistas são enfáticos, no entanto, ao afirmarem que a tomada em tempo seco não pode ser comparada ao que existe em locais de clima temperado, o chamado “sistema unitário”. Nele água da chuva e esgoto escorrem pelas mesmas tubulações, mas com manilhas projetadas para tal, por isso os especialistas afirmam que os sistemas unitários do Hemisfério Norte não são comparáveis, porque lá os sistemas nasceram assim, têm a ver com a história com que foram implantados. Para fazer na Região dos Lagos de forma eficaz, e não somente em tempo seco, teria que ter sistemas com dimensões muito maiores e isso seria inviável pelas proporções.

O tratamento em tempo seco não isola o esgoto da população, mas pode reduzir a presença do rejeito nas valas negras, melhorando a situação do saneamento porque você cria um sistema de recebimento de esgoto das unidades domiciliares. Mas não é a situação adequada. Se houver inundação, as pessoas continuarão tendo contato com os efluentes provenientes do lançamento dessas cargas.

 (*) Biólogo e Consultor Ambiental


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