jun 16 2017

O ÚLTIMO PRESIDENTE – Capítulo 5 – José Sette.

Published by at 5:05 under Jornalismo

JANGO-9

O ÚLTIMO PRESIDENTE

Jose Sette (*)

CAPÍTULO 5

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras

No gabinete, Marcelo continua a ouvir a conversa do Presidente pelo telefone com o General do II Exército.

AMAURY-JANGO

Presidente João Goulart (Jango) e o comandante do 2º Exército, com sede em São Paulo, o General Amaury Kruel.

O Presidente:

- Olha, você sabe mais do que ninguém que eu nunca tive compromissos com os comunistas, mas com a faca no peito, não me parece digno nem honrado qualquer tipo de transigência, nem mesmo a de uma simples promessa. Prefiro cair, a trair os que em mim confiaram. Mas faço um apelo ao amigo… Mesmo sem condições, pelas pressões dos seus oficiais, de manter-se na defesa do governo, fique marombando ai em São Paulo e me dê dois, três dias que acabo com esta quartelada mineira… Não! Não estou preparando um golpe, estou lhe pedindo um prazo! …
Está bem General, até o senhor, meu amigo, me abandona?

Marcelo apreensivo deixa o gabinete e se aproxima dos microfones da rádio e diz para o locutor que está fazendo uma proclamação:

Marcelo:

- Olha, você precisa dar algumas notícias, algumas informações mais precisas. Onde estão as tropas vindas de Minas? Onde estão as nossas forças que foram ao seu encontro? Alguma coisa real.

Marcelo chega agora na varanda do primeiro andar onde estão alguns deputados, ministros e correligionários do presidente passando à noite nas suas belas cadeiras de vime, numa das alas do corredor, em que se situava o gabinete do Presidente, do qual entravam e saiam, durante toda uma noite nervosa e uma ansiosa madrugada, o Secretário do Presidente, o seu General e o Ministro da Justiça. Marcelo aproxima-se dos três e pergunta ao Ministro que saía do gabinete:

Marcelo:

- Acabei de ouvir o pronunciamento do Governador da Guanabara… Ele está agindo com muita segurança, o senhor não acha?

Ministro:

- Os sediciosos estão liquidados.

Marcelo:

- Por que o senhor não manda então prender o Governador e decreta a intervenção na Guanabara? O Governador, Ministro, é sem dúvida um símbolo da rebelião e o anúncio de sua queda representaria um golpe fatal para os revoltosos…

Ministro:

- Não será preciso. O destino dele já está traçado… Estão esmagados todos…
Vou para o rádio fazer uma proclamação!

Argentina / Mercedes

Luiza e Camilo continuam seu passeio pela cidade.

Camilo

- No dia seguinte o ministro da justiça, coitado, já estava preso e depois exilado. Foi vender charutos lá no Peru, acabando os seus dias, fatigado de tantas batalhas perdidas, numa bela praia da Paraíba.

Camilo:

- E os outros coitados que passaram a última noite com o presidente?

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras.

Marcelo encontra-se com Eugênio que acabava de sair do gabinete do presidente.

Marcelo:

- Por que o presidente não pede a intervenção na Guanabara?

Eugênio:

- Tentamos isso, por duas ou três vezes, durante a madrugada, mas os generais deram o contra; acham que o governador não fez nada que justifique a medida.

Marcelo:

- Os generais são contra? Então o Presidente já não conta mais com o exército!

Eugênio:

- Você acha?

Marcelo:

- Acho sim e creio que está na hora do Presidente e todos nós voltarmos para Brasília e de lá coordenarmos a resistência do planalto central do país com o General que ainda nos permanece fiel…

Eugênio:
- Concordo com o nobre deputado, mas somos em grande número e vamos precisar de mobilizar a força aérea brasileira para que todos possamos acompanhar o Presidente…

Marcelo:

- Secretário, mas o palácio está sendo invadido, é um entra e sai sem fim, ninguém é revistado, o Presidente corre risco de vida! Nós podemos ficar, mas o presidente tem de partir…

Marcelo deixa o secretário e passa a caminhar pelos salões do palácio. Assusta-se quando encontra com uma pessoa sua conhecida; o turista marinheiro do hotel que estava no outro lado do salão conversando seriamente com o líder sindical que acabava de acordar e já colocava seus sapatos para mais um dia de agitação.
Marcelo, com curiosidade, se aproxima dos dois e antes de dizer alguma coisa é interrompido pelo sindicalista.

Líder:

- Mais um dia deputado… Mais um dia de vitória para a classe trabalhadora!… Deixe-me lhe apresentar um jovem revolucionário cubano que veio nos ajudar na luta dos trabalhadores brasileiros… Como é mesmo o seu nome? … Camilo! É esse o nome…

Camilo jovem:

- Me gusta mucho la causa del pueblo brasileño, y estoy aca para ayudar la classe obrera a encontrar su destino… com mucho gusto deputado!

Marcelo:

- Já não fomos apresentado? …

O Cubano olha para ele com desdém.

Camilo:

- Usted me vio en el ascensor del hotel donde estamos hospedados…

Marcelo não se sentiu à vontade com aquele jovem de rosto duro, lhe parecia conhecido. Pensando naquele rosto, distraído sai em direção à varanda onde estão alguns deputados e senadores levantando-se das cadeiras de vime aos primeiros raios de sol.

Saindo apressado do gabinete do Presidente vem o seu secretário Eugênio:

Eugênio:

- Senhores deputados, senadores, meus companheiros, peço por gentileza que deixem a varanda vazia porque o nosso Presidente vai ter uma importante reunião com os altos chefes militares…

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras.

Todos descem ao andar inferior.
Os três chefes militares chegam ao palácio.
O Ministro da Justiça, com seu entusiasmo retórico, ao ver entrar o General Ancora, comandante do I Exército, não se conteve e exclamou:

Ministro:

- General Ancora, bravo cabo-de-guerra!

Asmático, o General olha para o Ministro com raiva e não lhe cumprimenta, cansado bombeia os seus pulmões antes de subir as escadas.
Marcelo então fala para o Ministro da Justiça:

Marcelo:

- O nosso cabo-de-guerra está com dispnéia!

O Ministro da Justiça imperturbável, ainda saúda o Almirante que estava chegando.

Ministro:

- Velho lobo do mar, a resistência da Marinha de Guerra!

Marcelo:

- Mas Ministro, a resistência da Marinha está curvado sob doloridos anos, caminha penosamente com os passos claudicantes.

Chega o Brigadeiro e com a rapidez de um avião sobe, com passo lépido, a longa escadaria do primeiro andar.
O Ministro manteve-se calado.

Marcelo:

- Depois da dispnéia do exército, da morosidade da marinha, só nos faltam o enfarte da resistência aérea.

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras

No grande relógio do Palácio, são 9 horas.
Os ponteiros passam apressados as três horas que restam da manhã.
As pessoas acordadas se mantinham paradas no mais absoluto silêncio.
Enquanto isso no gabinete do Presidente…

1964

O Presidente João Goulart (Jango) e os ministros militares.

General 3:

- Infelizmente Presidente não podemos mais garantir a sua integridade física aqui no Palácio das Laranjeiras, muito menos dos seus ministros, senadores, deputados e simpatizantes aqui presentes.

Almirante:

- O senhor deve voar imediatamente para Brasília, lá organizaremos a resistência, mas antes peça para os que aqui estão que voltem para suas casas em ordem e em silêncio.

Brigadeiro:

- Garantimos que o avião estará esperando o senhor Presidente até às duas horas da tarde de hoje no aeroporto do Galeão.

O Presidente pede para que lhe deixe só.
O Presidente é iluminado pelo raio de sol que suavemente penetra no escuro gabinete por entre as frestas de uma grossa cortina, contrabalançando com o azul da luz do sol o amarelo das luzes acesas.

Argentina / Mercedes

Luiza e Camilo ainda passeiam por Mercedes.

Camilo:

- Todos conhecem essa parte da história. O presidente saiu, pegou o avião foi para Brasília e depois para o Uruguai, onde eu o conheci. Evitando assim, o derramamento de sangue dos brasileiros.

Luiza:

- E deixando abandonados seus amigos…

Camilo:

- Não havia outra saída, você viu o que aconteceu no Chile!

Luiza:
- Você falava de uma mala com dinheiro, mas matar um presidente por dinheiro não seria fútil e perigoso?

Camilo:

- Talvez o dinheiro fosse apenas um dos motivos.

Luiza:

- E com quem ficou este dinheiro?

Camilo:

- Os maiores interessados na morte do presidente eram os militares, que tinham medo do seu retorno, os políticos, que ambicionavam o seu poder, e alguns aventureiros, talvez motivados por dinheiro; não tenho dúvida que foi uma morte encomendada, uma morte cara, e executada por um especialista.

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras.

O Presidente e seus auxiliares mais íntimos entram nos carros estacionados no pátio e saem do Palácio das Laranjeiras.
Todos, que ali ficaram, estão atônitos, perplexos e sem saber o que acontecera.
Alguns parlamentares e ministros, vendo o Presidente partir, abandonam o palácio, apressados, seguindo o carro do presidente.
Vários carros estão saindo do Palácio e sem maiores dificuldade passam pelo cerco militar.
Marcelo, que a tudo observava, se aproxima do Ministro da Justiça e pergunta:

Marcelo:

- Ministro, para onde foi o presidente?

Ministro:

- Para a Vila Militar, assumir pessoalmente o comando das tropas, que pedem a presença de seu chefe… Vou fazer um pronunciamento no rádio!

O Ministro sai apressado em direção da sala de rádio.
Marcelo fica parado na porta, estático, sem movimento, quando vem passando apressado Eugênio, o secretário do presidente, que pára ao vê-lo.

Marcelo:

- Secretário, para onde foi o presidente?

Eugênio:

- Deputado Marcelo, vá para o hotel e avise aos companheiros que lá estão, que o presidente foi para Brasília e de lá eu telefono para todos vocês. Agora, vá para o hotel, pega a sua mulher e viaje para Minas o mais depressa possível.

Dizendo isso entra em um carro que está a sua espera e parte em disparada.
O exército de prontidão, nada faz.
O tempo passa.

Rio de Janeiro / Palácio das Laranjeiras.

Marcelo sai do Palácio junto com o Ministro da Justiça que apressado pede uma carona.
Enquanto o seu carro sai ele pode observar pelo retrovisor o solitário deputado da capa preta e sua metralhadora.

TANQUE-1

Rio de Janeiro.

O dia do golpe de 64 / Jornais e revistas de época.
Pelas ruas já se pode notar um movimento de soldados e policiais.
Uma tremenda fuzilaria pipocava na praça Floriano, onde um grupo pequeno de soldados é encurralado por uma multidão de estudantes.

Acontecimentos da repressão armada feita por civis que se diziam revolucionários e anticomunistas pelas ruas dos bairros, vasculhando casas, parando, buscando e prendendo pessoas indiscriminadamente.

Rio de Janeiro / Hotel Serrador.

Marcelo estaciona o carro na calçada do hotel e é impedido de entrar pelo porteiro. Saca do seu revólver prateado, que levava por debaixo do paletó e obriga o porteiro a abrir a porta do hotel.
Ao entrar no hotel é observado pelo turista que se esconde atrás de um jornal.
Marcelo usa o telefone do hotel e enquanto fala em inglês é observado pelo cubano.
No apartamento, onde estão os políticos reunidos, Marcelo é cercado por homens nervosos e castigados pelo medo.

Marcelo:

- Meus amigos, as coisas não estão nada boas, o presidente viajou para Brasília, perdemos a batalha carioca… Acho que todos deveriam ir para casa.

Os deputados em debandada deixam o quarto do hotel.

O Senador, inteiramente bêbado, esperava uma prostituta que acaba de chegar e que ele leva para cama.
O deputado Marcelo passa pela porta do apartamento do Senador.
Ele chama Marcelo para entrar e lhe mostra a mulher na cama.
Marcelo sai do apartamento do senador e entra no apartamento vizinho onde está sua esposa e sua filha dormindo.
Bebe uma doze de uísque e acorda com carinho Elizabete.

Marcelo:

- Elizabete meu amor, vamos acorda! Já é tarde. Precisamos viajar.

Entardecer – Rio de janeiro

Arquivos…

Cenas da cidade no dia 1 de abril de 1964.
O incêndio do prédio da UNE e a repressão dos militares contra o povo nas ruas.

 Argentina /Mercedes / Bar de Estrada

Os dois continuam a conversar e a gravar em vídeo esse diálogo.

Camilo:

- Ele foi muitas vezes traído…

Luiza, mais carinhosa com Camilo, pega em sua mão.

Luiza:
- Você está certo, ele foi traído… Mas vamos, me fale mais deste último dia. Mais um pouco e termino o seu depoimento.

Camilo:
- Não antes de entender o que você quer saber? O que o seu pai deixou escrito. O que você sabe do seu último dia?…

Luiza:

- Meu pai saiu do hotel com minha mãe, pegaram o carro e seguiram viagem para Minas…me deixaram só com meu avô, eu já disse… Mais, eu não sei! É para saber o que realmente aconteceu é que eu também estou aqui.

Camilo:

- Mas porque aqui? Como você me encontrou?

Luiza:

- Pesquisando para meu documentário eu cheguei a você.

Camilo dá um sorriso.

Luiza:

- Conheci um amigo do meu pai que me disse o quanto você poderia me ajudar a desvendar esse mistério. A partir dele, cheguei a você.

Camilo:

- Que morte lhe interessa mais? A do seu pai ou a do Presidente? Qual a verdade que você quer desvendar? A pessoal ou a política?

Luiza:
- A do Presidente! Você já entrou no espírito do filme – do meu documentário – onde começa a história se perde a ficção. Meu pai é um sonho perdido, me interesso mais pela história.

Camilo:

- Vou lhe dizer o que eu sei. O que vou lhe contar é um segredo e depois você me promete que vai pegar o avião e vai voltar para casa. Combinado?…

Luiza concorda com um movimento de cabeça.

Camilo, continua:
- Mas antes você vai ter de desligar esta câmera de vídeo. Do que vou lhe contar não pode haver registro.

As imagens vão se deteriorando em um fundo negro.
Silêncio.
As imagens voltam em fade.
Luiza está pálida, abatida, e triste.

Luiza:

- Não quero mais incomodá-lo, já está ficando tarde e preciso voltar para meu hotel, poderíamos deixar para amanhã o final de nossa conversa?

Camilo:

- Você não me incomoda! Sou seu amigo, posso lhe acompanhar ao hotel, se você quiser!

Luiza:

- Se quiser venha comigo…

Camilo:

- Olha, tenho uma idéia melhor! Vamos até o meu quarto, que fica aqui em cima deste bar, que eu vou lhe mostrar uma lembrança do Presidente.

Camilo retira do bolso do paletó um relógio de ouro e vê nele as horas.
Luiza não consegue tirar os olhos do relógio.

JOSE-SETTE-6

(*) Cineasta e autor do “Último Presidente”.


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