jun 19 2017

O ÚLTIMO PRESIDENTE – Capitulo 6 – José Sette.

Published by at 5:05 under Jornalismo

JANGO-6

O ULTIMO PRESIDENTE

Jose Sette (*)

CAPÍTULO 6

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Entardecer em Minas Gerais / Montanhas.

Uma casa simples nas montanhas.
Uma fumaça sai de sua chaminé.

Minas Gerais / Sítio avô de Luiza.

Luiza, ainda criança, está sentada lendo um livro ao lado do seu avô.
Ao lado dos dois está o fogão de lenha onde se prepara o café.
O avô retira do bolso um relógio de ouro e olha às horas.

Rio de Janeiro / Hotel Serrador.

Marcelo está olhando o relógio de ouro que havia tirado do bolso um pouco antes de entrar no carro acompanhado de sua mulher e de sua filha.

Marcelo:

- Elizabete não fique preocupada, daqui até Minas é um pulo e ninguém vai querer fazer nada contra um deputado. Estaremos na casa do seu pai antes da meia noite.

Marcelo arranca com carro.
Outro carro, pouco depois, sai atrás dele.
No seu interior estão Camilo e o agente louro.

Argentina / Mercedes / Quarto Camilo

Luiza entra no quarto de Camilo. Ele abre uma gaveta e entrega para ela uma foto onde ele está ao lado do Presidente. Luiza pede licença e grava tudo com sua câmera de vídeo. Grava o quarto inteiro. Camilo fica nervoso e faz com que ela pare de filmar.

Argentina /Mercedes / Hotel

Do outro lado da rua está brilhando o néon do Hotel.

Luiza entra no quarto do hotel e muito apressada mexe na mala de onde retira o pacote que havia recebido no hotel em Buenos Aires. No interior estão vários objetos que são colocados sobre a cama. São eles: alguns retratos, uma caneta de ouro, uma corrente com uma medalha, um relógio de bolso de ouro e um revólver prateado. Exibe o vídeo no monitor e corre a fita até o quarto de Camilo.
Lá, observando com atenção as imagens, ela, indo e vindo com a fita, consegue descobrir uma maleta grande de couro escondida no canto da sala. Na maleta, examinada com mais detalhes vê-se um impresso em relevo ao lado da alça – uma vaca dourada que brilhava no movimento nervoso da câmera.
O telefone celular toca repetidas vezes. Ela não atende.
Vendo os retratos e mexendo nas coisas que estavam no pacote, ela adormece.

Nas montanhas de Minas

A morte de Marcelo.
Marcelo e sua mulher têm o carro interceptado por um outro carro que o seguia em uma estrada de terra deserta no interior de Minas Gerais.
Camilo e seu companheiro louro descem do outro carro e se aproximam da janela do outro carro onde está Marcelo.

Camilo:

- Deputado Marcelo, o senhor está sendo chamado de volta ao Rio e viemos com a missão de buscá-lo. Por favor, desça do carro e nos acompanhe.

Marcelo:

- Por favor, peço eu! Estou com minha mulher, minha filha e perto do sítio onde estou indo. Vamos até lá e civilizadamente, depois de deixar as duas em segurança, eu lhes acompanho aonde vocês quiserem me levar.

Camilo, saca o seu revólver e aponta para Marcelo:

Camilo:

- O Deputado não entendeu! Esta é uma missão secreta. Vocês ficam aqui e o meu amigo leva sua filha até o sítio do pai dela.

Marcelo, visivelmente assustado arranca com o carro e parte em disparada. Camilo e o seu amigo louro atiram em direção do carro de Marcelo. Uma bala atinge Elizabete e outra fura o pneu do carro fazendo com que o mesmo entre pelo pasto desgovernado e capote, ficando de cabeça para baixo no meio do capim da estrada.
Elizabete está morta, a criança chora do lado de fora e Marcelo, ainda vivo, se arrasta para fora do carro.
Marcelo, com seu revolver prateado em punho, atira em Camilo, tenta fugir e é morto com um tiro, dado pelo agente louro que acompanhava Camilo, nas suas costas.
Camilo se aproxima do carro e recolhe a criança.

Argentina / Mercedes / Hotel

No quarto do Hotel a luz do néon é substituída pela luz do sol que entra pelas frestas da janela.
Luiza acorda agitada.
Lava o rosto, arruma sua valise e nela coloca o pequeno revólver e a pistola.
Fecha a conta do hotel pelo telefone.
Toma um copo de vinho e sai do quarto.

Argentina / Mercedes

Luiza sai do hotel e entra no carro.
Registra todos os seus movimentos e tudo mais em sua volta com seu equipamento.
O Carro não chega a atravessar a pequena cidade. Em poucos metros chega a um posto de gasolina, onde fica o bar de Camilo.
Luiza para o carro em frente do bar.

Argentina /Mercedes / Bar de Estrada

Luiza chega ao bar.
Camilo já estava sentado na mesa.

Camilo:

- Você está abatida e parece cansada…

Luiza:

- Tive um pesadelo esta noite e mal consegui dormir pensando num fim para meu documentário. Escrevo uma história sem os nomes dos meus principais personagens, cada um deles, à sua maneira, representa hoje e representará amanhã, os mesmos homens e os mesmos conflitos, apresentados no passado. Vamos gravar sua história, pois preciso encontrar um final para a minha…

Camilo:

- Foi em dezembro de 1976, o presidente, sua mulher e o motorista almoçavam num hotel com um grupo de brasileiros. Eram pessoas que haviam vindo do Brasil para tratar com ele de sua volta ao país. Havia muita gente lá que eu não conhecia… O Presidente tinha com ele sua pasta de couro…

Luiza:

- Os dólares. Você sabe quem ficou com eles?

Camilo:

- Eu sei quem levou a mala do presidente. Se é isso que você gostaria de saber… Olha, vou lhe contar o que aconteceu no almoço…

Argentina / Mercedes / Restaurante do Hotel

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Titulagem: Mercedes – Argentina – Dezembro de 1976.

Hotel a beira da Estrada.
Almoço no hotel.
O presidente almoça com um grupo de pessoas.
Camilo, o cubano do hotel Serrador, mais novo, é o garçom que serve o uísque ao presidente. O rapaz que está na mesa com o presidente, é Guido.
Guido observa Camilo que depois de uma troca de olhares, pega a mala de couro do Presidente.
Na mesa a conversa corre solta com o Presidente dizendo de sua alegria em voltar ao Brasil.
Camilo está na cozinha quando se aproxima dele Guido.

Guido:

- Não tente nos enganar… Nossa parte deste dinheiro deve estar em nossa conta amanhã à tarde…

Retira do bolso um cartão e entrega a Camilo.
Guido sai sorridente. Camilo guarda o cartão e volta ao salão onde serve uma última dose ao Presidente.
Camilo e o Presidente, através de gestos e olhares, mostram alguma cumplicidade.
O Almoço termina e todos se despedem.

Argentina /Mercedes / Restaurante do Hotel

O Presidente se despede dos que o acompanharam até a porta, entra no carro com sua família.
O carro do presidente sai, avança e se perde na primeira curva da estrada.

Argentina /Mercedes / Bar da Estrada

No interior do Bar estão Camilo e Luiza.

Camilo:

- Vou lhe dizer a verdade! O que eu sei da história me foi contado pelo piloto do Presidente…

Luiza:

- Então você não sabe de mais nada?

Camilo:

- Sei que o dinheiro, toda aquela fortuna, seria para garantir sua segurança na Argentina e para preparar seu retorno ao Brasil…

Luiza:

- Mas este dinheiro não serviu nem para uma coisa nem para outra… mais uma vez ele foi traído. Mas isso já não tem muita importância para mim.

Entardecer // Argentina / Fazenda do Presidente

À tarde, chegam à estância.
A brisa mexe com o capim verde.
O dia claro de verão está terminando.
Uma mulher fecha as cortinas da janela.
À noite chega escura sem lua.
Após o jantar na varanda da casa, o presidente vai se deitar.
As luzes da casa se apagam.
As luzes apagadas da casa são acesas.
Chega um médico na casa trazido pelo capataz.
Logo depois chegam mais duas pessoas que estavam com o Presidente no almoço, uma delas é Camilo e o outro um homem trajando roupas típicas dos pampas gaúchos.
A mulher, que acaba de fechar a cortina da sala, sai para a varanda e conta para o médico e os outros três ali presentes o que havia acontecido.

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Jango, em sua casa no Uruguai.

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O enterro de Jango, no Brasil.

JANGO-MORTO

Honras de Chefe de Estado aos restos mortais do Presidente da República João Goulart (Jango) – 1

JANGOMORTO

Honras de Chefe de Estado aos restos mortais do Presidente da República João Goulart (Jango) – 2

Mulher do Presidente:

- O Presidente foi se deitar mais cedo, pois se sentia indisposto, custou a dormir. Um pouco mais tarde, repentinamente começou a se mexer muito para depois ficar quieto. Fiquei preocupada e coloquei a mão no seu coração. Chamei o capataz e pedi para que ele buscasse imediatamente o senhor em Mercedes, mas já não adiantava mais nada… Ele já estava morto.

Noite // Argentina /Mercedes / Fazenda do Presidente

A casa toda iluminada está envolta num silêncio mortal.

Noite // Argentina / Mercedes / Bar da Estrada

Luiza arma seu equipamento e fala para câmera colocada em um tripé.

Luiza:

- Será este o mesmo lugar onde almoçou o Presidente? Onde ele tomou a sua ultima dose de uísque? O Mistério ainda é grande e creio que ainda estou longe de saber toda a verdade.

Camilo olha para Luiza já se levantando.

Camilo:

- Assim morreu o presidente. Se eu posso lhe ajudar em mais alguma coisa, diga, estou a sua disposição.

Camilo então pegou seu relógio de bolso e olhou as horas.
Luiza mais uma vez vê o relógio de seu pai, idêntico ao de seu avô sabendo que Camilo é o assassino de seu pai e talvez do presidente.

Luiza (retirando da bolsa um velho caderno):

- Vou ler para você as últimas linhas que meu pai escreveu no seu romance inacabado, você quer ouvir? “O medo transforma-se aos poucos em pavor e os nervos triturados provocam um torpor de morte por todo o teu corpo que já não te deixa mexer um músculo sequer, instalando-se na alma a paralisia do horror e no coração o domínio da loucura”…

Silêncio…

Luiza:

- Agora que eu já sei quem você é, posso terminar o documentário sobre o homem que assassinou o último presidente…
Meu pai, vindo do passado, mostrou-me o final da sua história.

Saca o pequeno revólver de seu pai e o aponta para Camilo.
Camilo, olhando para a arma, sem mudar sua expressão de rosto diz:

Camilo:

- Eu lhe teria poupado da verdade, mas se você quer mesmo saber…
Seu pai, seu herói, era um homem do golpe, da operação americana… um traidor de seu país. Um informante eleito deputado pelo IBADE, com o dinheiro americano. Um espião que traía sistematicamente seu Presidente e seus companheiros de partido…

Noite – Minas Gerais – Estrada de Terra.

As imagens em pequenas sequências de planos como em um mosaico aos olhos da menina seguem a narração. Carro de Camilo perseguindo o de Marcelo.

Camilo (cont.off):

- Eu era como uma imagem em negativo de seu pai, era um agente castrista entre os refugiados de Miami e finalmente infiltrado no CIA. Eu o vi várias vezes com pessoas da embaixada. Seu pai foi condenado à morte como traidor do povo brasileiro.
No dia mesmo do golpe ele esteve comigo no Palácio das Laranjeiras. O resto da história é a que você sabe. Levamos você para a casa do seu avô e depois enterramos os seus pais.

Noite // Argentina / Mercedes / Bar da Estrada

Camilo:

- Mas não fui eu quem matou o seu pai, ele foi morto pelas circunstâncias. E também não matei o presidente, estávamos ali para defendê-lo – ele foi assassinado pela “Operação Condor” com a ajuda de pessoas muito próximas a ele, morreu mais uma vez vítima da traição. Eu sou um agente da revolução e você tem que acreditar no que lhe estou dizendo … todo o dinheiro que passou pelas minhas mãos, foi entregue ao partido…

Luiza com o rosto frio, como se desistisse de mata-lo, lentamente coloca o seu pequeno revolver na mesa do bar, vira-se de costas fingindo que vai sair.
Camilo, pega rapidamente o revólver da menina que ficou por sobre a mesa e aponta, com a mão firme, a arma para ela.
Antes de apertar o gatilho lhe diz com a voz seca e um pouco sarcástica:

Camilo:

- Seu pai morreu porque sabia demais e já não tinham mais necessidade dele…
Tenho muita simpatia por você, uma vez lhe salvei a vida quando era criança, mas hoje já não posso correr o mesmo risco…

Puxa o gatilho.
A arma não dispara, está sem as balas.
As balas estão na mão da menina e vão caindo no chão, uma a uma, enquanto
ela vai se virando em cena, tirando da bolsa a pistola automática com o silenciador, até ficar novamente de frente para o bar onde está Camilo, atônito, esboçando um leve sorriso, com a pequena arma na mão.
Os olhos de Camilo encontram os olhos de Luiza.
Um vento frio sopra levantando as toalhas das mesas.
Luiza, com a arma apontada para o rosto de Camilo, aperta o gatilho.
Do ponto de vista de Camilo a imagem de Luiza se desfaz em uma explosão de luz e em mil pedaços de sombras, até que tudo em sua volta se torna noite escura sem lua.

Amanhecendo – Argentina/ Buenos Aires/ Aeroporto Internacional

Luiza entra no guichê da Air France.
A mala de couro do Presidente está em suas mãos.
No interior do avião ela esta sozinha sentada em uma cadeira e na sua frente, está Guido, sorridente.
Dia escuro e chuvoso – Aeroporto Buenos Aires.
O avião decola.
O céu está repleto de nuvens negras formando, entre raios e coriscos, rapidamente uma tempestade.
Nuvens negras…

JOSE-SETTE-TANCREDO-NEVES

(*) “Meu amigo, Presidente Tancredo Neves, com o qual fiz o filme “LIBERDADE”, está, aonde estiver, na sua história democrática, envergonhado com os políticos brasileiros e principalmente com o seu partido o PMDB golpista e seus asseclas reacionários. Sou mineiro e “O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade”.

 


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