jun 11 2018

QUEM É POLÍTICO? Paulo Cotias

Published by at 5:13 under Jornalismo

ARTIGO BEGE ESCURO

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Paulo Cotias (*)

A política nos dias atuais parece escorregar para dois extremos. De um lado o ceticismo, justificável até, misturado à revolta de quem tem associado a figura do político como sinônimo de corrupção. Esse tipo de visão pode produzir um efeito destrutivo para a sociedade, a apatia, a indiferença e o desejo de não votar. Deixar de usar o direito do voto é um grande risco. Gostando ou não da política, tudo nas relações humanas se resolve por meio dela e seremos governados, independentemente da nossa posição a respeito. Por isso, quando abrimos mão de votar, deixamos para os que praticam o banditismo eleitoral a chave do tesouro e do nosso destino enquanto comunidade. É uma maneira muito estranha de lutar contra os corruptos. Quem não vota pelo argumento da generalização da safadeza, toma um copo de veneno esperando matar o mau político. Já sabemos quem morre no final…

Do outro lado do ceticismo temos no extremo o messianismo eleitoral. Todas as vezes que um candidato for cantado como o salvador disso ou daquilo é preciso máximo cuidado. Um messias não se apresenta nunca como um político. Ao contrário, se apresenta raivosamente contra o ser político e, assim, de maneira muito sutil, se coloca acima dele. Se nossas relações humanas são políticas por natureza, o que se apresenta como não-político se coloca para o público como uma figura quase divina. Daí temos dois enormes problemas, ambos catastróficos. Podemos produzir com essa crença um messias que não governa. Que é a estampa, o totem, o avatar, o santo de vestir da procissão. E quanto o messias não governa, alguém o faz. E vai fazendo até que o santo seja desnecessário e possa sair de cena. Mas também podemos produzir o messias que governa e quando o faz não conhece os limites do razoável. Quem governa com messianismo não presta contas a nada e nem a ninguém que não seja seus seguidores mais fanáticos, e mais beneficiados diretamente, é claro.

Em meio a essas questões surge sempre a invocação do novo como o desejável. E todos querem ser o novo. A questão é que nem todos podem ser de fato. Podemos lembrar o tempo em que o México era governado sob a mão de Porfírio Dias. Antes da Revolução que marcaria a efetiva mudança, Dias já com décadas de governo direto e indireto e em idade avançada, propôs ser a novidade e a salvação. Ou seja, veio candidato para ser a salvação contra o que ele mesmo foi responsável por deixar a desejar. Só ele poderia ser a novidade contra ele mesmo. Até venceu com a força da corrupção, mas não vingou. A história do Brasil também é pródiga de novidades velhas. O problema da novidade velha é que não consegue esconder os traços da velhice, por mais maquiagem, plástica, discursos e juras. Quem carrega uma novidade velha está sempre vazando por algum canto um pedaço, um indício, uma prova de que não pode ser o novo. Nossa República, por exemplo, nasceu como a novidade que tinha as mesmas caras que atolaram o país na escravidão e no atraso. Os mesmos segmentos que desejavam unicamente manter abertas as portas dos seus próprios benefícios.

Só pode ser o novo quem demonstra capacidade de inovar. A inovação é o político que exerce, vive e assume a política como instrumento necessário para a transformação de uma sociedade. É quem sabe no fazer político aglutinar as forças que compartilhem do mesmo desejo, não importando em qual terreno elas estejam dispersas. O novo não se faz sozinho. Mas também não se faz com qualquer um. Até por que de gente de bem o inferno está cheio, mas tão cheio, que tem deixado levas e mais levas vivendo por essas terras.

 (*) Professor.


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